“Eu quero o oceano”: Por que esperamos tanto para viver uma vida que só existe agora?

Recentemente eu assisti ao filme Soul, da Pixar, e confesso que de imediato eu não fui tão profundamente tocada pela história, mas depois de alguns dias pensando nele e assistindo alguns TikToks (todo o meu agradecimento ao @lizartur_. Sigam o divo) que discutiam sobre o tema do filme, eu finalmente consegui ter uma percepção mais sensível e plural sobre o que a obra quer passar para quem assiste.

Fazendo um breve resumo e introdução à animação, ela acompanha Joe Gardner, um professor de música insatisfeito com sua carreira, mas apaixonado por jazz, que acredita ter encontrado o propósito de sua existência ao receber a oportunidade de tocar com Dorothea Williams, uma renomada saxofonista. No entanto, no dia em que está prestes a alcançar a grande realização da sua vida ele acaba morrendo. A partir disso, Joe vai viver uma grande aventura na dimensão do “Além-vida”, tentando voltar à realidade, para viver o que ele acredita ser o seu “propósito”. Durante essa jornada, Joe encontrará uma personagem importantíssima para a narrativa do filme, a 22, uma alma “Pré-vida”, a qual tem uma perspectiva muito diferente da de Joe sobre o que é a existência e que ficará ainda mais explícita quando os dois personagens forem para o mundo real. Vou parar por aqui, para não dar muitos spoilers sobre o filme, porque eu quero de coração que você assista essa obra, que aliás já ganhou dois Oscars.

Tomando como ponto de partida a reflexão que o filme desperta, comecei a pensar em quantas vezes acreditamos que só seremos realizados quando alcançarmos determinado objetivo. E isso começa muito cedo. Pensamos: quando eu passar no vestibular, serei feliz. Depois, quando terminar a faculdade. Depois, quando conseguir um bom emprego. Depois, quando me casar e construir uma família. E, por fim, quando me aposentar. Só então, finalmente, viverei feliz. Até que, quem sabe, a vida termine de repente ou, como aconteceu com Joe, justamente no dia em que acreditávamos ter encontrado aquilo que daria sentido a tudo. Percebe como a vida vira uma lista de “quandos”? Deixamos de vivê-la e passamos a condicioná-la.

 Esses ditos que ecoam por nossas cabeças durante toda a vida, nos fazem temer viver e adiar nossas próprias jornadas, esperando um clímax que guarda toda a razão pela qual existimos, o chamado propósito. Mas até que ponto isso se mostra condizente com a realidade? Estamos esperando um momento feliz ou um momento que justifique toda a nossa existência?

Acredito que ansiar por algo em sua vida e lutar para que aquilo aconteça é essencial, pois faz com que tenhamos força, fé e resiliência para alcançar nossos objetivos, é natural buscarmos por algo que dê direção à nossa caminhada, mas é importante que ela não nos defina por completo. Foi nesse pensamento que percebi uma das ideias mais bonitas de Soul. O filme faz uma distinção entre o que é “propósito” e “faísca”, “faísca” não é o motivo de existir, é simplesmente aquilo que desperta em você a vontade de viver. Pode ser arte, cozinhar, estudar, apreciar um bom chocolate ou rir com amigos, ela não dá sentido à vida, ela desperta o desejo de vivê-la.

“Em soul, Joe perde a vida enquanto tenta conquistá-la.”

Quando confundimos aquilo que amamos com aquilo que acreditamos justificar a nossa existência, a paixão deixa de ser fonte de alegria e passa a carregar um peso impossível. Esperamos que ela responda por nossa felicidade, nossa identidade e pelo sentido da nossa vida. Foi justamente aqui que eu gritei: “BINGO!”. Porque foi nesse momento que percebi o que aquela animação que à primeira vista parece simples, mas é carregada de complexidade estava tentando dizer. Depois de finalmente realizar o sonho de tocar ao lado da grande saxofonista, Joe pergunta: ‘E agora?’. A resposta dela é simples: ‘Amanhã voltamos e fazemos tudo de novo.’ Talvez seja essa a maior quebra de expectativa do filme. O grande objetivo não encerra a busca por sentido, porque a vida nunca esteve concentrada naquele único instante. A vida acontece dia após dia, segundo a segundo. Não é justo reduzir uma vida inteira a uma única conquista. E digo isso pensando em desejos absolutamente comuns: um carro novo, uma casa grande, um corpo malhado. Eu também quero essas coisas. O problema nunca esteve nelas, mas na expectativa de que sustentem, sozinhas, o peso da nossa existência.

“Talvez não estejamos adiando apenas a felicidade. Estamos adiando a própria experiencia de viver.”

Mas se a vida não está naquele grande momento, onde ela está?

Para refletirmos sobre essa pergunta, podemos partir de um dos conceitos desenvolvidos por Friedrich Nietzsche: o “amor fati”, expressão em latim que significa “amor ao destino”. Para o filósofo, viver plenamente não é apenas aceitar aquilo que nos acontece, mas dizer “sim” à própria existência, reconhecendo cada acontecimento como necessário na construção de quem somos. Em outras palavras, é amar a vida como ela é, com seus dias extraordinários e principalmente com os comuns. Afinal, são nesses dias que a maior parte da nossa vida acontece.

Quando contemplamos o significado do “amor fati”, deixamos de tratar a vida como uma sala de espera e passamos a vê-la como o espetáculo inteiro.

Nesse sentido, há uma cena em Soul que, para mim, é a mais linda de todas e resume tudo o que tentei refletir até aqui. Quando Joe termina a tão sonhada apresentação de jazz com Dorothea, ele pergunta para ela “o que acontece depois?” e ela responde “voltamos amanhã à noite e fazemos tudo de novo”. Joe se vê abalado, pois esperou a vida toda por aquele dia e pensou que se sentiria diferente quando acontecesse, então ela conta uma historinha: existia um peixe jovem, que nadou até um peixe ancião e disse a ele que estava tentando encontrar essa coisa que eles chamam de oceano. O peixe mais velho respondeu “Oceano? Você está no oceano”, o peixinho retrucou, “Isso? Isso aqui é só água. O que eu quero é o oceano!”.

“Talvez a tragédia não seja passar a vida inteira procurando o oceano. Talvez ela seja morrer sem perceber que, durante todo esse tempo, estivemos cercados de água.”

Finalizando este texto, percebi que, no fundo, ele nunca foi apenas sobre Soul. Também era sobre mim. Sobre todas as vezes em que adiei a minha vida esperando pelo próximo “quando”. Eu continuarei sonhando com o futuro, porque sonhar também é uma forma bonita de viver. Mas espero nunca mais esquecer que o futuro não é o único lugar onde a vida existe. Se um dia eu finalmente encontrar o oceano, quero olhar para trás e perceber que também soube enxergar a água.

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