“Amar exige verbo”: Quanto daquilo que dizemos desejar estamos, de fato, dispostos a viver?

Recentemente comecei a ler Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, da Bell Hooks, um livro publicado em 2000, mas que ainda hoje, em 2026, continua extremamente atual. Talvez porque o amor seja um daqueles temas que nunca deixam de ser atuais.

Desde o prefácio, fiquei completamente deslumbrada com as inúmeras nuances pelas quais o amor pode ser pensado e, principalmente, pensativa sobre ele. Hoje comecei o segundo capítulo e, sinceramente, adoraria conseguir dedicar muito mais tempo à leitura desse livro. Mas os estudos, provas da faculdade, projetos científicos, TikTok, Reels, Twitter, YouTube, Prime Vídeo , HBO Max e, claro, a procrastinação não têm colaborado muito com esse plano. Mas, ainda assim, a leitura tem sido maravilhosa.

De qualquer forma, antes de seguir adiante, eu queria parar para falar sobre o primeiro capítulo, “Clareza: pôr o amor em palavras”, porque ele me atravessou desde a primeira frase.

Uma das coisas mais estranhas sobre o amor é o fato de que usamos essa palavra o tempo inteiro sem necessariamente saber do que estamos falando. Dizemos que amamos pessoas, músicas, cidades, comidas, fases da vida. Dizemos “eu te amo” como uma das declarações mais intensas possíveis e, ainda assim, raramente paramos para nos perguntar o que exatamente queremos dizer quando usamos essa palavra.

É justamente dessa falta de clareza que a autora parte em sua obra. No primeiro capítulo, ela insiste que a dificuldade de definir o amor não é apenas uma questão semântica. Quando uma palavra pode significar quase tudo, ela também corre o risco de não significar muita coisa.

“Usamos a palavra amor de um jeito tão desleixado que ela pode significar quase nada ou absolutamente tudo”

Por isso, experiências tão diferentes acabam recebendo o mesmo nome: apego, desejo, paixão, dependência, cuidado, carinho, obsessão, necessidade. Tudo pode ser chamado de amor quando não existe uma definição minimamente compartilhada sobre o que ele é.

Isso parece ainda mais curioso quando pensamos no tempo em que vivemos. Estamos obcecados por nomear tudo. Damos nomes para estéticas, comportamentos, sentimentos e formas de se relacionar. Existe a clean girl, existe FOMO, existe situationship, existe uma palavra para quase toda microexperiência contemporânea. Nomeamos porque reconhecer uma experiência parece torná-la mais compreensível. Então por que, justamente quando chegamos ao amor, aceitamos tão facilmente a ideia de que ele deve permanecer  misterioso, quase impossível de definir?

É possível que exista até uma certa resistência em definir o amor porque isso parece pouco romântico. Como se colocar contorno em algo tão subjetivo diminuísse sua beleza. Mas pode acontecer exatamente o contrário: nomear não retira a magia; talvez dê ao amor forma suficiente para que a gente consiga reconhecê-lo.

Porque, se não sabemos o que estamos chamando de amor, como saber quando ele está realmente presente? E, mais importante ainda, como perceber quando aquilo que estamos vivendo recebe esse nome, mas não corresponde a ele?

É a partir dessa pergunta que Bell Hooks propõe uma mudança que altera completamente o rumo do capítulo: em vez de pensar o amor apenas como sentimento, ela nos convida a pensá-lo como ação.

“O amor é o que o amor faz. Amar é um ato da vontade – isto é, tanto uma intenção quanto uma ação. A vontade também implica escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar”

 Essa ideia me lembrou de uma conversa que eu e a Maju temos com frequência: gostar de alguém também envolve escolha. Talvez a gente não escolha o primeiro impulso, a atração, a curiosidade ou o encantamento. Mas escolhe se vai alimentar aquilo. Escolhe mandar mensagem, continuar a conversa, criar espaço, fantasiar possibilidades, insistir, se aproximar. Escolhe, de alguma forma, se colocar naquela situação. E quem sabe seja por isso que a frase de  Hooks tenha me chamado tanto a atenção: amar não aparece apenas como algo que nos acontece, mas como algo que fazemos.

Quase tudo o que sustenta uma relação é feito de pequenas escolhas repetidas. Escolher ouvir quando seria mais fácil ignorar. Escolher conversar quando seria mais fácil desaparecer. Escolher cuidar, reparar, permanecer, ceder, se comprometer. Por isso, o amor não está apenas nas grandes declarações, mas justamente nessa repetição cotidiana de escolhas. Porque amar não é escolher alguém uma única vez, mas escolhê-la de novo e de novo todos os dias, (acho que essa é a lógica de todas as relações, seja amizade, namoro ou casamento).

É exatamente por essa razão que amar pode ser tão perigoso. Se o amor é ação, então o exercício — ou a ausência — dessa ação tem consequências reais sobre o outro. Cuidar, escolher, permanecer, ouvir e reparar podem construir um vínculo; omitir, negligenciar, desaparecer, prometer sem cumprir e agir de forma incoerente também dizem alguma coisa. Quando o amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser prática, aquilo que fazemos — e aquilo que escolhemos não fazer — ganha peso.

Por isso, amor fere tanto quando falha: porque não sofremos apenas pelo que alguém sentiu ou deixou de sentir, mas pelo que fez conosco em nome desse sentimento.

Amar exige verbo — e verbo exige ação. Não basta querer amor, falar de amor ou se dizer apaixonado. É preciso se tornar alguém capaz de praticar aquilo que o amor pede.

Quando li esse primeiro capítulo, comecei imediatamente a pensar em situações, conversas e referências que já faziam parte do meu repertório. Porque, quando falamos sobre amor, é muito fácil desejar tudo aquilo que ele pode nos oferecer e nos esquivar daquilo que ele exige de nós para existir.

Uma das primeiras frases que me veio à cabeça foi: “Boys always choose the easier option because the hardest ones require them to be men.” Gosto da provocação que existe nela. Não porque acredite que todos os homens inevitavelmente ajam dessa forma, mas porque ela toca numa questão que me interessa: quantas vezes alguém deseja profundamente o amor, mas não está disposto a amadurecer, agir ou mudar para vivê-lo?

Amar cobra coisas pouco glamourosas. Conversas difíceis, consistência, responsabilidade, entrega, capacidade de ceder e de sustentar desconfortos. O amor não exige perfeição, mas exige movimento.

E foi aí que pensei em Tudo é Rio, da Carla Madeira, um dos meus livros favoritos da vida inteiraaaa. Em determinado momento, ela descreve o amor como um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo. E essa imagem parece resumir perfeitamente o que Bell Hooks propõe: se o amor é verbo, ele precisa acontecer. Precisa ser ouvido, tocado, cuidado, demonstrado. Precisa de atenção, presença, concessão. Há coisas que o amor exige de nós que, muitas vezes, ainda não estamos preparados para oferecer — embora continuemos desejando recebê-las.

“E o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo”

A partir disso, penso em tantos homens que dizem querer uma namorada, um relacionamento, alguém para cuidar deles e dividir a vida, mas não estão dispostos a mudar absolutamente nada da vida que levam como solteiros. Querem o amor, mas também querem preservar intactas a farra, as possibilidades e a ausência de compromisso.

E não existe nada de errado em gostar de festas, dos amigos ou da própria liberdade. Eu também gosto. O problema começa na contradição de desejar incessantemente uma relação enquanto se recusa a fazer qualquer movimento para construí-la. Amar alguém não significa abandonar a própria individualidade, mas reconhecer que a existência do outro inevitavelmente reorganiza alguma coisa: prioridades, escolhas, tempo, responsabilidades.

Muitos querem a namorada, mas não querem o relacionamento. Querem a companhia, mas não querem o compromisso. Querem ser amados sem permitir que o amor produza qualquer mudança na forma como vivem. Querem o amor como substantivo, mas rejeitam os verbos que vêm junto com ele.

Outra frase simples que resume bem essa ideia é: “actions speak louder than words”. Se o amor é prática, as palavras precisam encontrar correspondência na ação. Do que adianta alguém dizer que ama se constantemente age como se não amasse? “Eu te amo”, mas não ligo. “Eu te amo”, mas não faço questão. “Eu te amo”, mas te desrespeito. Em algum momento, é preciso perguntar: onde esse amor existe além da frase?

O amor não se sustenta apenas no que é dito; ele se sustenta na repetição cotidiana daquilo que fazemos.

E essa lógica, para mim, ultrapassa inclusive o amor romântico. Penso na própria fé. De que adianta dizer que amo Jesus se esse amor não encontra espaço na maneira como vivo? Se não rezo, não busco sua palavra, não participo da missa, não cultivo essa relação? Também aí o amor se torna verbo. Amar é uma escolha que precisa ser refeita no cotidiano.

O amor deixa de ser apenas uma ideia quando começa a produzir consequências na maneira como vivemos. A existência do outro passa a ocupar espaço real. Nossas escolhas deixam de ser exatamente as mesmas. Alguma coisa precisa se mover.

É fácil desejar o amor enquanto ele permanece apenas uma ideia. O desafio começa quando esse amor ganha verbos.

A pergunta que ficou comigo foi: o que o amor é capaz de mudar em nós — e por que, às vezes, essa mudança assusta tanto?

Se amar implica mudança, exposição, entrega e responsabilidade, faz sentido que também exista medo. Parte do nosso medo de amar pode nascer do risco, da intimidade e da transformação que esse vínculo exige.

Querer amor não é necessariamente a mesma coisa que estar disponível para vivê-lo. A gente pode desejar intimidade e, ao mesmo tempo, construir formas de se proteger dela. Pode querer ser conhecida, escolhida e cuidada, mas ainda assim manter o outro a uma distância segura. É o famoso “apego evitativo” — expressão que hoje aparece em todo lugar e que, apesar de muitas vezes ser usada de forma simplificada demais, ajuda a pensar nessa contradição entre desejar proximidade e recuar quando ela começa a exigir vulnerabilidade de verdade.

Não é suficiente apenas desejar o amor. Amar exige, em algum nível, abrir mão de certas formas de segurança que construímos para não nos machucar.

A intimidade que queremos é justamente aquilo que exige que alguém tenha acesso às partes que tentamos proteger.

Esse dilema me lembrou de The Archer, da Taylor Swift. A música inteira me parece existir dentro desse conflito: o desejo de que alguém fique e, ao mesmo tempo, o medo de ser conhecida profundamente o bastante para que essa pessoa tenha a possibilidade de ir embora. Existe algo muito angustiante em querer intimidade e, ainda assim, passar boa parte do tempo criando mecanismos para não estar completamente vulnerável a ela.

Esse medo não precisa aparecer como um “eu não quero me relacionar”. Ele pode ser muito mais sutil: na escolha de pessoas emocionalmente indisponíveis, em relações que já nascem com um limite claro, em vínculos sem compromisso, em histórias que sabemos que dificilmente se tornarão alguma coisa concreta ou na idealização de relações que existem muito mais na possibilidade do que na realidade.

Há uma segurança particular em amar aquilo que não precisa ser totalmente vivido.

Uma relação imaginada pode permanecer perfeita. Uma relação impossível pode continuar cheia de potencial. Um quase-relacionamento pode oferecer desejo, carinho, companhia e intimidade sem exigir o mesmo grau de exposição que uma relação real exigiria.

O filme Past Lives me vem muito à cabeça aqui. Existe alguma coisa muito bonita — e ao mesmo tempo muito segura — nos amores que permanecem no campo do “e se?”. (Eu poderia citar de novo a Taylor com “The 1” aqui, mas vou me conter, quem pegou a ref pegou).

Aquilo que não aconteceu nunca precisa enfrentar completamente a rotina, o conflito, a negociação, o cansaço, a incompatibilidade, a frustração. O amor imaginado nunca precisa sobreviver a uma terça-feira qualquer.

Relações impossíveis podem ser emocionalmente convenientes exatamente por isso: elas permitem que a gente continue acreditando profundamente no amor sem precisar descobrir o que aconteceria se ele realmente se tornasse possível.

Essa é uma das formas mais sofisticadas de desejar o amor à distância: mantê-lo perto o suficiente para senti-lo, mas longe o suficiente para se proteger.

Algo parecido acontece nos vínculos que permanecem deliberadamente indefinidos. Ficantes e quase-algos podem oferecer companhia, desejo, atenção, carinho e intimidade, mas também preservar uma espécie de saída de emergência emocional. É possível gostar, se envolver, sentir falta e criar memórias sem assumir tudo aquilo que uma relação mais profunda exigiria.

A própria autora em Tudo Sobre o Amor observa que muitas pessoas escolhem relações de afeto e carinho que nunca chegam a se tornar propriamente amorosas porque parecem mais seguras. Elas exigem menos, expõem menos, cobram menos coragem. Isso ajuda a entender por que tantos vínculos permanecem nesse lugar intermediário: próximos demais para serem indiferentes, mas distantes demais para exigirem compromisso.

Isso não significa que toda relação casual seja uma fuga ou que toda idealização seja um problema. O ponto está menos no formato do vínculo e mais na função que ele cumpre. Existe uma diferença entre escolher conscientemente uma relação sem compromisso e escolher repetidamente relações que nunca poderiam se aprofundar porque isso parece mais seguro.

A ausência de um amor profundo também não transforma, necessariamente, a vida em algo miserável. É possível estudar, trabalhar, viajar, sair com os amigos, rir, ter companhia, carinho, projetos e uma vida genuinamente boa — e ainda assim sentir que falta alguma coisa. Quando a vida funciona, é fácil dizer: “eu estou bem assim”. E pode estar mesmo.

A pergunta que interessa é outra: eu estou satisfeita porque essa é realmente a vida que quero ou porque construí uma vida confortável o suficiente para não precisar me arriscar emocionalmente?

No começo do capítulo, Hooks insiste na necessidade de colocar o amor em palavras. Depois de tudo isso, entendo melhor o motivo. Definir o amor não é tirar sua magia. É construir um mapa.

Um mapa que ajuda a reconhecer quando estamos realmente amando, quando estamos apenas desejando ser amados e quando estamos escolhendo caminhos que parecem amorosos, mas que na verdade existem para nos proteger do risco de amar. Ele não percorre o caminho por nós. Ele apenas mostra onde estamos, para onde queremos ir e, às vezes, o quanto temos caminhado na direção contrária.

Se amor é ação, então ele exige escolha. Se exige escolha, exige movimento. Se exige movimento, inevitavelmente nos transforma. E talvez amar seja justamente isso: permitir que alguém tenha importância suficiente para produzir consequências reais na forma como vivemos, sem que isso signifique desaparecer dentro do outro.

Então se amar é uma prática, conhecer o caminho não basta. É preciso escolher percorrê-lo — sabendo que ele exige movimento, vulnerabilidade e a possibilidade de sermos transformados no processo.

Ao mesmo tempo, essa transformação só é possível quando existe coragem para se expor. Não existe amor profundo sem algum grau de vulnerabilidade. Não existe intimidade sem o risco de ser visto. Não existe entrega com garantia absoluta de que ninguém vai se machucar.

Talvez seja por isso que falar sobre amor seja tão difícil. Porque, no fundo, falar sobre amor também é falar sobre tudo aquilo que precisamos desaprender para conseguir vivê-lo.

Depois desse primeiro capítulo, a pergunta que ficou para mim deixou de ser apenas “o que é o amor?” e passou a ser uma muito mais difícil: quanto daquilo que eu digo desejar estou, de fato, disposta a viver?

Porque saber o caminho até o amor é uma coisa. Ter coragem de percorrê-lo é outra.

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